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ÁGUASDOLUSO

BURRIQUEIROS,OS QUE TOCAM OS BURROS...

ÁGUASDOLUSO

BURRIQUEIROS,OS QUE TOCAM OS BURROS...

19
Jun18

FORA DE CENA, ALTO LÁ COM ISSO!!!!!

Peter

 

em cena.jpg

 C orria o ano de 1962  quando o nosso conterraneo João Abrantes teve uma pausa nos afazeres teatrais  que então ensaiava como vida , e veio passar o inverno á sua terra natal, o Luso, Era um homem  novo de idade e de ideias que trazia consigo  a dinâmica  do palco , por isso não perdeu tempo em ressuscitar o grupo do Ginásio, um clube da altura , hoje nuitos anos de morto lhe pesam  sobre a memória dos que a têm , esquecido  das novas gerações que dele não tem notícia .  Mas é ainda um resto de saudade para alguns, eu ou o Rocha entre esses, que passamos horas a relembrar os tempos  que não se extinguiram como estes tempos modernos em que um simples ministro declara pela própria lingua pátria que o tempo deixou de existir ou, mais  explicitamente, existe para essa remessa nova de vespas  da politiquice  cana de pesca onde se  vegeta a vida , mas não para professores que ensinam aos meninos e não só como será ou seria o futuro de um país. Vai daí o João Abrantes que depois veio a optar, melhor, a seguir a vida dos hoteis, tenho a certeza que não a de vocação mas de recurso , tal e qual como mais tarde se veio a sacramentalizar por  decretos  dando mais ou menos  por sorteio o futuro de cada um aquilo que lhe sai na rifa do imprevisto, sobretudo aos mais fragilizados que mal tem dinheiro para chegar ás universidades, quanto mais para investirem em exlicadores de ensino e de preparação de exames, fora  os dos domingos , feriados e dias santos, que essas costumam ir pelas vias de off-shores  e outras regalias a que o sacrificio de servir reinos e republicas dá direito absoluto.  Como ele , o João  Abrantes repito, para não perdemos o fio ao diabo da meada, trazia do Parque Mayer  uns ensinamentos actualizados para fazer revistas, não da crónica feminina nem da flama ou século ilustrado que era o que havia na  altura, mas revistas verdadeiras feitas no Parque Mayer ás escondidas do monstruoso Salazar que, comparado com os santinhos dos nossos dias era um herege mau cheiroso e só não "mamava" umas criancinhas ao pequeno almoço porque não autorizava comunistas nas repartições publicas. Eu próprio, pouco depois quando acabado  o meu curso de dia de semana, ao tempo não havia conhecimento dos cursos tirados aos domingos, feriados e dias santos de guarda, tive que declarar, apesar das minhas dúvidas sobre o que era coisa de comunismo, que o não era, nunca teria sido se tivesse conhecimento dele  e que no futuro o repudiaria com todas as minhas forças porque era assim que era, era assim que mandava a lei do Cerejeira e dele próprio, Salazar pai da Nação.Faço questão  de esclarecer que não estou a dizer que os mandantes de hoje são piores ou melhores que os de ontem, quanto muito serão a mesma coisa , em certas coisas melhores, em certas coisas piores , isto porque Portugal foi e será sempre  um país desiquilibrado, ou oito ou oitenta como diz o povo, mas  tal fenomeno dava-nos na altura assim como aos actores verdadeiros donde vinha afinal o João, um certo prazer ao fazer teatro e até ás vezes se pensava que a bem dizer até esclareciamos de certa maneira o povo com as piadas fora do carimbo da censura, pois neste mundo há e haverá sempre arte e magia para trocar as voltas ás palavras. Bom, fosse como fosse o João Manuel  mostrou o seu projecto e aderimos de imediato e entre umas ceias arranjadas no Ginásio, ou em casa dele,  exactamente do outro lado onde prenderam o Alvaro Cunhal,ou  na rua  Formosa à  Pia que ainda o não era na altura , mas que também servia de apoio ás peças , sobretudo porque escreviamos os quadros em cima dos pipos do pai do Rocha, e matavamos a sede no espicho para obter inspiração. Entre mim , a Fernanda Santos, o Federico de Brito, o António Rocha e o João , dito Manuel  ou Abrantes ou as duas coisas juntas, fizemos a prosa e adaptamos a musica da Corina Freire á versalhada que fui fazendo dia a dia.Arranjamos os artistas, às vezes com muitas dificuldades porque não se passava a libertinagem de então como se passa agora, o contexto era o da janela e o abraçar só nos bailes do  1º e Dezembro o outro clube da terra que ao sábado os organizava sempre com casa cheia.No fim,  ficou um único problema por resolver, o da censura, como diabo ia-mos fazer passar um texto inédito para uma revista provonciana na malha apertada das lapiseiras censórias que eram novidade na altura. Refiro-me ás lapiseiras, claro, porque a censura era velha, já estavamos  habituados a ela, o D.João !! utilizou-a e não esteve com meias medidas, cortou a cabeça a todos. e o Marquês de Pombal  fez o mesmo á tosse que veio de alguns. Ainda não havia tarrafal , apesar de tudo  uma coisa mais levezinha que as guilhotinas reais e qua ainda fazem falta em dose mais moderada.Deixamos o caso para pensar e começamos os ensaios, ora na sala do Casino, a mesma que agora os donos  não emprestan a ninguém , desde que levaram daqui o engarrafamento da água de Luso pelas estradas da Câmara da Mealhada abaixo,  e a sede para Cracóvia, na Polónia, onde os impostos da CEE estão a preços de saldo. A alternativa era o cine-teatro Avenida que estava  de porta aberta se não houvesse cinema , um espaço  sempre disponivel para ensaios  e  espectáculo desde os tempos da Sociedade Agricola do Valdoeiro do Messias Batista até a minha amiga a dona Hildegarda que adorava estes  artistas amadores que lhe levavam o teatro a casa. Ela morava sob a plateia do velho cineteatro e achava que a sala de espectáculos era um local de trabalho , ao contrário dos democratas de Abril que começaram a fazer cinemas novos com dinheiros da CEE  e entenderam que eram bons demais para o pagode dos palcos  e lá cediam a casa para o dia  do espectáculo porque hes dava jeito e popularidade, mas antes, que fossem ensaiar á cavalariça de algum vizinho  que não se podia estragar a sala, utilizando , ribalta , cadeiras estofadas e  camarins de primeira que ainda brilhavam á luz do sol  quando abriam de espanto  a cegueira dos olhos ou absorviam goela abaixo  orgulhosamente  as palmas que lhes não cabiam na barriga, uma pacovice portuguesa de arregalar a vista á ignorância activa,  Não sei se o inchar de sapo já foi de moda, mas  a minha amiga Hildegarda nunca teve esses preconceitos e se agente precisava  ensaiar ensaiva nem que fosse nas escadas da geral numerada ou no corredor dos camarotes velhos, algum tempo ainda forrados a setim vermelho que lhe dava um cheiro duma ópera de cidade , mas era apenas a ilusão do nosso desconhecimento que fabricava os sonhos mais espantosos!   Foi ainda o João Abrantes, dito também Manuel, manhoso como os sabidos de Lisboa , que foi buscar a Cascais para o pedido da licença  e para o cartaz da propaganda uma peça  já censurada ," Costa do Sol em Festa" com  a qual se obtiveram as autorizações necessárias para a subida á cena. Não com o  titulo emprestado como seria lógico supor, mas com o próprio nome de batismo que lhe deramos e respectivos textos que nada tinham a ver com o texto autorizado . Foi assim  que a revista se chamou "Alto Lá Com Isso ", uma obra  prima da nossa aventura e literatice que afinal  existindo,  não existiu. Não melhor nem pior que outra que se levou á cena mais tarde , o "Salve-se Quem Puder " com textos feitos no burgo , desta vez passando mesmo pelo aval da censura nas barbas do fiscal , comprado por umas palavras de bom gosto e inchaço de importância que lhe conseguimos dar como se fosse rei e senhor da pandega regional. Nem os textos ,senão em alguns fragamentos dfispersos , nem  gravação magnética ou digital, a segunda por não haver, a primeira pela raridade e custos do seu processamento ficaram de testemunho nesta biblia de engaços. Apenas fotografias, umas a preto outras a cores a relembrar gerações.  Portanto, postas as coisas neste pé, só o testemunho escrito bebido de oralidade e algumas saudosas fotografias não pode resistir ou impedir  a tentação  de registar aqui o nome de todos os participantes , com desculpas para a falta de alguém que, apesar de cuidadosa procura, pode escapar involuntáriamente á nossa boa vontade.

 

Iª parte      UM PEDIDO DE CASAMENTO, comedia em 1 acto de António Tchekhov, tradução de Correia Alves

Actores e personagens

Américo Leite :Stepan Stepanovitch Tchubukov

,Mário Penetra: Ivan Vassilyevitch Lomov

Maria Teresa Carvalho Natalya Stepanovna

 

 

IIª Parte Alto Lá Com Isso ,

Autores : Fernanda Santos,Frederido de Brito,Fernando Ferraz, António Rocha, João Abrantes.

Música de: Corina Freire

Actores:  António Santos:  ( Mr Bown, compere) João Malaguerra :( Zé dos Jornais,noivo,pescador,turista);  Manuel Figueiredo: ( Guarda do Lago,arrais,fadista) :Maria Aurora (camponesa,noiva,varina,) Maria S.José Leite: (camponesa,mãe,) Almira Pimenta: (camponesa,noiva,peixeira); Celsa Pimenta :(romeira,noiva,peixeira,) José Balau (romeiro,sacristão,pescador,director) , Graciete Leite :(noiva,cantadeira,fadista,peixeira,) Ernesto Santos: (noivo,lavadeira,guarda,director) Fernando Ferraz:( noivo ,caiador, lavadeira, candidata a actriz), António Rocha( Serafim, Delfim,Lavadeira,Candidata a actriz) Américo Leite:(Avô, ) João Abrantes (conta a história, como bate um coração),Maria Teresa Carvalho ( Micaela).  Alfama das Naus, quem vai na marcha :Maria de S.José,Graciete Leite,Celsa Pimenta,Almira Pimenta,José Balau,Ernesto Santos, Fernando Ferraz,António Rocha,Manuel Figueiredo,João Carlos,Fernando Rosa, João Malaguerra. Fonte de S.João , marcha final: Toda a companhia.

Autores: Como Bate um Coração : Nelson de Barros, e João Nobre , Na Rua dos Meus Ciumes : Fernando Santos e Frederico Valério, Fonte de S.João : Fernando Santos, Nelson de Barros, Frderico Valério.

 

Realização e direcção de cena de João Abrantes , Direção e execução musical de Alvaro Silva

Direção cenográfica e de montagem de Rogério Almeida , cenografia de Rogério Almeida, Fernando Rosa e João Carlos Santos,Assistência coreográfica de José Balau

Luminotécnica e sonoplastia de Joaquim ferreira e Manuel Figueiredo, jardins do 6º e 10º quadros executados por Francisco Carvalho, Ponto, Alberto Penetra,Contra Regra, Carlos de Castro, Maquinista Antero Maria, Carpinteiros de cena Plácido da Cruz e Albino Guedes,Materiais fornecidos pelas firmas ,Casa Zenith, Casa Triunfo, Farmácia Nova,Casa Ramalheira,Francisco Pereira Coelho, Manuel Abreu.  Os costumes folclóricos foram gentilmente cedidos pelos ranchos Tá-Mar da Nazaré e Tricanas de Aveiro . A realização deste espectaculo só foi possivel graças á gentil colaboração de Sociedade da Âgua de Luso e da empresa do Cine-Teatro Avenida.

 

Espectaculos em Cine Teatro Avenida do Luso: 12,13,19,20 Janeiro de 1963 ás 21,30

No Cine Teatro Messias, na Mealhada em

Todas as sessões esgotaram a lotação.

Extrato do livro "Luso,  Histórias Breves da Àgua e das Gentes"

19
Abr18

CULTURA DO CENTRO

Peter

DSCN5202.JPG

 Na minha terra já minha mãe, tios, primos e vizinhos faziam teatro de amadores juntamente com a sua geração e durante muitos anos continuou nas mãos da cultura popular o promover da arte do nobre Talma sem que passasse pela cabeça dos voluntários artistas um subsídio estatal. A geração seguinte, onde incluo minhas parcas intenções e dotes herdados, continuou o drama e a comédia que já vinha de trás com jeitos de diversão e entretenimento e evidentemente cultura, ainda que em muitos sem a noção, porque este palavrão cultural tem que se lhe diga, quer no conteúdo, quer nos meios, quer no estrato social onde vai cair. Seriamos amantes e amadores provincianos, curiosos intrusos dum interior esquecido, criadores de geração espontânea, de culto tradicional romeiros ou rameiros do pagode de aldeia, já que o verdadeiro espetáculo desta casa comum sempre se limitou a repolhos e alfaces dos palcos de Lisboa, a cabeça, por excelência, da macrocefalia nacional. Nesta matéria, como noutras, se insistiu durante séculos no monopólio do gosto, daí o ditado velho de Portugal ser Lisboa e o resto ser paisagem. Esta pouca ou nenhuma atenção para este movimento de amadores que algumas vezes alastrou com escala nacional nunca foi habituado a subsídios, elogios e benesses e muito menos aproveitado como potencial escola ou oficina, uma base natural que existia no país e que poderia, se aproveitada e motivada, contribuir de algum modo para elevar o grau dessa mesma cultura e instrução nos meios menos acessíveis.

Se é certo que o advento da televisão trouxe consigo o apagar quase total deste papel participativo das populações locais sobre o palco, utilizando adereços cívicos, tradicionais e culturais do próprio meio, também é certo que a televisão além de o matar esqueceu-o, excluindo de si e dos seus fins aquilo que poderia ser utilizado, incentivado e aproveitado em benefício de todos, tendo em mente a comunidade linguística e social que somos. Porque também a televisão tem pertencido á mesma macrocefalia da capital, também ela tem sofrido das mesmas enfermidades e só a fartura de autoestradas e quilómetros as tem tentado ultimamente a dar alguns passos, mesmo assim na perseguição do lucro e não na cultura, esta mais pindérica que outra coisa.

Nas últimas décadas, porém, a juntar-se aos poucos grupos que resistiram ao tempo e às dificuldades, surgiram algumas companhias profissionais de novas escolas nas principais cidades e juntaram-se ao rol dos subsídios atribuídos pelo ministério da Cultura, não os amadores, mas os projetos dos grupos profissionais, os quais são, por escassos e escolhidos, sujeitos á competição entre eles, ainda que com muito pouca clareza. Cresceram direções regionais de cultura com o seu diretor regional, um elemento nomeado conforme a política que ganha o poder para representar os seus interesses, mas naturalmente também a comunidade de atores e grupos profissionais da respetiva área. Isto continua a não retirar a macrocefalia a Lisboa, nem na letra da palavra nem na doutrina política, mas é um passo, ainda que não definitivo como sempre acontece na história que nos acompanha.

Queixam-se as companhias do Centro que a directora regional Celesta Amaro, não dará assistência ,nem apoio ,nem incentivo capaz aos grupos militantes existentes o que a ser verdade não faz senão continuar o traçado comum de sucessivos governantes  para quem a cultura é o Centro Cultural de Belém ou o Estádio da Luz, aos quais se pode juntar o estapafúrdico novo Museu dos Coches que, nascido numa bela cavalariça real do Palácio de Belém, foi transferido para um armazém de carroças na lateral da mesma praça com euros da CEE , sem  beleza e desnudado como Deus o pôs ao mundo, se fosse matéria humana como aquilo que representa.

Se tem andado mal a senhora como dizem as notícias, pelo menos é simpática, garantem os grupos, três deles em Viseu e um em Coimbra que receberem subsídios, mas também os restantes que não o receberam. Será pouco para a zona centro entre concorrentes que não sabemos quem foram nem quantos foram? Naturalmente será, mas nada foi para amadores, esses eternos amantes que se tentam espalhar de novo país fora. A cultura ministeriável é reservada a gente mais erudita e snobe, aos outros, o povo acrítico e alegre, bastará o Quim Barreiros, o amoroso Paulo, as novelas e as fogosas meninas das nossas televisões apocalípticas. A cultura é feita para o voto, não é o povo que faz a cultura, essa, a autêntica e genuína, vive na idade média do caminho, por ser coisa pouco vista ou apoiada por quem o devia fazer. Estranhamente, até os municípios encheram o país de cineteatros, comumente para servir os espectáculos das companhias da capital, raramente para estar abertos á cultura local como palco e escolas de aprendizagem nesta área das artes. Porquê? Regra geral porque não se pode estragar a estrutura e os seus equipamentos, que, sem essa componente livre e local, acabam por servir para pouca coisa.

Mas o mais estranho e caricato da questão, voltando á cultura do Centro, que na verdade em pouco ou nada se dá por ela, a coisa passa pelo regozijo que a simpática diretora regional mostrou ao passar recentemente por uma associação não apoiada elogiando-a, pelo facto da referida “não incomodar a administração central a pedir dinheiro “. No outro dia, na porta do seu gabinete em Coimbra, tinha pendurado um letreiro sucinto mas esclarecedor, “Não incomodar”.

A cultura do Centro, como se vê, a considerar este absurdo comentário, está em boas e simpáticas mãos. Só que Viseu não seguiu os conselhos da diretora e arrecadou os seus trocados, não se sabe por intermédio de quem, mas isso também é coisa normal nos subsídios públicos. Seja como for, num país onde a pedinchice é uma instituição pode ser d’outra maneira?

 Bolzano, Abril,2018

 

 

 

 

05
Dez17

FORMOSA À PIA

Peter

 

DSCN5224.JPG

  N ão é comprida nem larga, podia chamar-lhe beco, viela, mas quis a toponímica oficial que se chamasse rua e assim figura o nome na identificação ainda que se lhe não conheça a ponta onde se pega o início ou se prolonga o fim. Porém é antiga, dos tempos em que o Luso não passava de dois pequenos lugares na nascente da ribeira dos Moinhos. Um denominado da Igreja, a nordeste, o outro, de Além a sudoeste, ligados pelo antigo caminho do Sentido. Esta via seria então o caminho principal da povoação descendo da Igreja aos milheirais da linha de água que atravessava numa rústica ponte, para subir do outro lado até às traseiras da Pensão Portugal que nasceu muito depois. Cortando na perpendicular o que veio ser mais tarde a Francisco Grandela, atravessava depois a “futura” rua da Pampilhosa na garagem do Joaquim Rocha, estrada nascida nos tempos de Emídio Navarro, quando mandou executar a urbanização das termas do Luso, uma das mais velhas urbanizações com pés e cabeça levada a cabo neste país de improvisos. Tão bem planeada que ainda hoje subsiste a sua modernidade e não fosse a desordenada e anárquica gestão municipal a cercear a continuação do trabalho iniciado há mais de um século e continuaria a vila a ser um exemplo na história. A velha estrada ou caminho, no soco urbano, era pois parte do chamado caminho do Sentido, que entalado entre as traseiras da Portugal e as novas habitações, veio a ser, nos cem metros em causa, a rua Formosa à Pia dos dias actuais. Metros de percurso que continuavam a meia encosta pela Quinta do Viso, pelo posterior do Casal Filomena, pelo Vale da Ribeira, Curral Velho, Quinta do Sentido e Louredo, antes de existir a estrada actual para Sazes, Lorvão e Penacova. Claro que falamos de alguns sítios e lugares não existentes na altura e doutros que foram em paralelo surgindo com o desenvolvimento das Termas, o evidente motor do crescimento do sítio.

Se viajando no tempo voltássemos á tarde do dia 29 de Junho de 1628 assistiríamos à chegada dos primeiros obreiros do Convento do Buçaco á casa dos arcos que ocuparam na “Formosa à Pia,” assim chamada porque o primeiro piso assentava sobre arcadas, arquitectura típica dos seculos catorze e quinze. Chegados de Aveiro, eram eles Frei Tomás de São Cirilo, Frei João Batista e Alberto da Virgem, carregando consigo três cobertores para a cama, uns peixes para a boca e dez cruzados para o começo da obra. Mas logo a 25 de Julho seguinte se lhes juntaram Frei Bento dos Mártires, Frei António do Espirito Santo e o irmão flaviense António das Chagas, oficial de alvenaria. Foi dali que subiram diariamente à serra para preparar os terrenos e lançar a primeira pedra do edifício no dia 7 de Agosto do mesmo ano e nos finais do mês já os encontraríamos definitivamente instalados no Buçaco. A 19 de Março de 1630 deram por fim início á vida em comunidade.Da estadia no Luso ficou a casa até há bem pouco tempo, quando foi sobre ela erguida uma segunda e moderna habitação no cotovelo que junta em meia dúzia de degraus a Pia à rua da Pampilhosa.

Ora quando a partir dos meados do séc. XIX o Luso iniciou o seu percurso termal que curiosamente o município recusou em sessão de Câmara despoletando a solução duma sociedade por quotas, o crescimento deu lugar á construção de novos edifícios cujo número foi aumentando década após década, foi para a via do Sentido que foi aberta a porta da cozinha da Pensão Portugal na qual o proprietário incluiu uma taberna cujo balcão de atendimento dava para a mesma rua, viela ou travessa. O vinho para uso da pensão era porém guardado na cave em frente, em velhas pias de azeite que serviam de garrafeira improvisada empilhadas umas sobre as outras e onde o Adelino, jovem filho do casual taberneiro, de vez em quando juntava os amigos  em convívios petisqueiros que não seriam molhados a água da fonte, mas sim a vinhos da pia. E porque o álcool trepasse ou a moderação faltasseno equilíbrio dos corpos e das coisas, sucedeu que um dos convivas caiu dentro duma pia numa noite fria de Inverno, vendo-se grego o grupo para o levantar do assento, e no dia seguinte, já nas instalações do Luso Ginásio Club que funcionava no cotovelo do sul, resolveram rebaptizar a rua que ao tempo não tinha nome com a denominação de Formosa. Pudera!Mas Formosa era já a rua da Ti Nazaré atrás da Lusa ao Outeiro do Bodo , no outro lado, o da Igreja onde a Nazaré possuía  negócio de loureiro com uso de vários anos  e donde o Barraqueiro era decano com outros  frequentadores da Oliveira da Sorte e também palco que o Alves do Monte Novo não raro utilizava para declamar o seu “fufu carago, fufu” antes de subir Velal acima quando conseguia ultrapassar , ziguezagueando, a Fonte do Castanheiro. A solução foi acrescentar à pia a formosura e assim, no ano de 1958, numa tarde de sol, foi organizada a cerimónia do batismo começada e acabada com um discurso do Vladimiro , filho da D. Olga dos Correios e com a presença dos moradores do beco e convidados. Rua Formosa à Pia foi o nome sublinhado em honra á pia do azeite, consequência da bondade do vinho como a posteridade supõe e supõe bem, sem enoturismo e sem gralhas da politiquice.Cinquenta anosdepois,indo casualmente a uma sessão de Câmara a proposta oficial por um nome naquela artéria, concordou o executivo camarário unanimemente com a denominação e assim foi registada nos regulamentos toponímicos locais e nas placas que lhe dão hoje o suficiente identificar.

PS- Crónica escrita a pedido dum morador que forneceu dados essenciais sobre o assunto em razão de duvidosas questões sobre as origens do nome. Aqui fica a narrativa sobre o quanto é sabido da Rua Formosa, À Pia.

 

22
Nov17

BARBEARIA DO POMPEU

Peter

vacuum.jpg

 

Antiga fotografia da Barbearia Pompeu, (último dono)

nas lojas inferiores do não menos velho Hotel dos

Banhos que hoje já não existe. Este Luso  esquecido

e desaparecido já não faz parte da memória  da terra.

Ao lado da barbearia  era também a Casa Zenith,

agente da philips, onde passaram as  primeiras

imagens da televisão a preto e branco que foram 

vistas na vila e  também em Portugal, e do lado do

mercado, vulgarmente praça, esteve a Tabacaria

Luisa.

Do hotel, dos azulejos que enfeitavam a parede ,

da sua  varanda e nespereiras onde repousavam 

os hóspedes,  tudo foi na destruição termal  que a

contemporaneidade desastradamente operou.

Uma terra sem memória e sem história é como

um ser  sem alma, um ser despido,nú, despojado

dum passado  que a modernidade e a falta de poder

arruinaram.

Duma época aurea que teve condições para

prosseguir pouco ficou e hoje esta terra , nas mãos

duma municipalidade que suga como um aspirador

história e bens á sua volta, não tem um emprego

para oferecer  aos filhos.

 

09
Set17

FAVELA

Peter

DSCN5199[1].JPG

Não, não é uma favela do Rio de Janeiro mas uma

paisagem turistica aqui bem perto de nós, no

coração das "ditas" termas...ex do Luso....deste

Luso que não nos deixa de espantar....com

o seu turismo festeiro..

31
Ago17

Ladeira do Chafariz

Peter

RSCN5214[1].JPG

 Aspecto da Ladeira do Chafariz uma velha rua

do Luso de Além , hoje no seu estacionamento

empedrado, depois de ter sido uma rua em

macadame e alcatrão.

Serviu carroças e burros , ronceiros carros de bois

e, como se pode ver neste boneco batido, ainda

mantém  o seu perfil urbano e citadino.

Agora, sem lugar para  peões já não dá acesso

á Pensão Portugal nem á Pensão  das Termas

e  muito menos é palco de relatos de hóquei

patins dos tempos áureos do Jesus Correia,

do Cruzeiro, do Correia dos Santos, do Lisboa

e Perdigão ou do Emidio, guarda redes.

É uma rua  velhinha duma terra que perdeu

o seu encanto e romantismo e deixa apenas

saudade pelo que foi e que não é.

 

30
Ago17

CHAFARIZ

Peter

DSCN5202[1].JPG

 Ao fundo da ladeira do Chafariz, o Chafariz de

torneira está recuperado e desanuviado mas

para ser o que foi falta-lhe na frente a pia que,

cheia de água fresca  da  fonte sedentava bois

e burros quando esta terra era de  termas e de

burriqueiros que os puxavam na frente.

No Verão era a pequena cidade que hoje não

é e criava-se riqueza quando hoje  não há um

emprego para alguém se fixar. Os lusenses

parecem satisfeitos com a situação, mas não se

ponham  a pau e ainda vão ser aldeia.

Desta vez concerteza, não voltarão os

burriqueiros! O Chafariz, datado de 1917, 

tem gravado em pedrinhas do Buçaco

o nome da Sociedade de Propaganda

de Portugal.

Foi por aqui que me criei até aos onze anos de 

idade , mas agora doi-me a alma pelas 

pela estagnação  e pelo retrocesso em que 

a terra se afundou recentemente.

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