Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2014

A ÙLTIMA PENSÃO

 

 

Comecei o ano a lamentar o fecho da última pensão das Termas do Luso num pequeno apontamento na crónica anterior, mas hoje proponho-me relembrar algumas outras unidades da hotelaria  que o tempo consumiu, umas certamente por inabilidade local, outras por falta de continuidade familiar ,outras pelo estadoi tísico a que chegou a terra por mor de quem lhe extrai  a única riqueza que tem no subsolo, a  água. Não fosse esta riqueza  abundante e talvez as termas tivessem mais oportunidades de sobreviver! Elas foram desde metade do séc. XIX ,o único polo de desenvolvimento local e o desinteresse a que estão agora votadas é  a ruina dos dias actuais. Era de  prever, era de ver!

Alguns leitores  podem pensar que a minha insistência no assunto é exagerada ou que sou pessimista  crónico. Não, não penso uma coisa nem outra, trata-se apenas duma teimosia sem frutos, revolvida sem arado, num terreno de ervas daninhas onde o joio se apoderou da razão. Depois, não entendo como se pode calar a subtração da riqueza dum lugar, e sublinho que pessoalmente nunca subsisti da minha terra natal, quando os exploradores da riqueza  se defendem com a panaceia duns trocos para  manter o silêncio dos poderes politizados e das gentes.   Não quero ser a voz de ninguém mas quero ser, na parte de  que me toca de gentio, a minha  voz. A minha opinião. Um grito de  revolta. O silêncio é a aceitação duma canga que o Luso e a sua população  não merece face á mina que lhe é explorada no subsolo e ao papel activo e ás vezes inovador que desempenhou na àrea das àguas e turismo em Portugal. E ao que construiu durante durante 150 anos de industria.

Viver de recordações ainda que avalize um passado não é suficiente para construir um futuro , há que reconstrui-lo com outros métodos , outas forças e outro empenho.  Foi assim que nos primórdios das Termas se disponibilizaram  casas e quartos para os primeiros termalistas e só depois surgiram as pensões. Dos meus tempos de juventude recordo a Pensão Avenida , a Lusa, a Portugal, a Central, a Alegre, a das Termas, a Astória, depois a Regional, a Imperial, a Bussaco, a Choupal. Sem esquecer o pioneirismo dos hoteis com o Central , depois Coimbra na década de vinte, o Palace do Bussaco, traçado pelo cenógrafo italiano Luigi Manini, o Hotel Lusitano e o Serra ,( herdeiro do  Serra Velho ) , ou o Hotel dos Banhos em pleno centro do Luso e só depois o Grande Hotel das Termas traçado por Cassiano Branco  ou o Eden , mais recente.

A maior parte deste mundo morreu bem como as figuras que lhes deram o nome e lhe sustentaram  a imagem , mas nós, descendentes de gerações comprometidas e activas com este rico espólio  e tradição, somos herdeiros vencidos  pela estagnação verificada. São tempos maus para as pessoas  mas é às pessoas que cabe exigir dos poderes publicos e políticos uma mudança radical de atitude , uma exigência firme na defesa dos interesses locais onde a industria hoteleira e do turismo teve um lugar destacado. Onde o estabelecimento termal  e o seu apoio de fisioterapia  e bem estar  fazem falta e foram  um  bem delapidado inconscientemente com a conivência omissa de entidades com responsabilidades na matéria . Onde, quem subtrai do subsolo  a única riqueza tem deveres para cumprir como polo dinamizador.  Há ou não desenvolvimento, como diz o contrato de concessão? Se há retrocesso , um país honesto só pode rescindir o negócio !

Parece que os concessionários se admiram com a pouca frequência das Termas , resumida a 600 aquistas. Quanto pegaram nisto pela água engarrafada , eram 1800 os utilizadorres. Ironicamente, tudo fizeram para reduzir a um terço a área termal , curiosamente de 1800 metros quadrados, para 600. Admirados? A sua acção foi reduzir, não foi desenvolver! A mesma ironia, mas gostosamente admirados talvez.   Ou a hipocrisia?

Há poucas dezenas de anos a época  balnear fazia do Luso uma pequena cidade com cinco,seis mil habitantes e mais de quatro mil aquistas. Porque destruiram  tudo isto a favor exclusivo da água engarrafada? E as pessoas? O municipio ? A região? Nada conta?

Parece que aceitamos a albarda  estrangeira  e a mama de quem  vende a Pátria sem qualquer reclamação !                                    Luso,Fevereiro,2014

publicado por Peter às 21:47

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Sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2014

TERMAS DO LUSO

                  UM VERÃO DE S.NICOLAU 

 

 

 O ano de 2013 foi-se num Verão em que tivemos por aí o enfático São Nicolau na televisão, queimando ramos verdes sobre termas e spas o que nada adiantou nem atrasou ao movimento de aquistas. Uma espécie de santo de pau carunchoso a fazer crer que está o que não está, existe o que não existe, se faz o que não se faz, teatralizando cenas mascaradas de funcionalidade a justificar o injustificável, enfim, marketing de fraca qualidade e ineficaz, uma fachada deprimente para comércio da paróquia.

Meteu o artista a confirmar a  arte, a imagem, a exposição e copos de água para enganar papalvos. A verdade porém continua a ser a da incapacidade das termas, agora também clínica, para dinamizar spas, fisioterapia, ingestão de bebidas, banhos e como consequência desta ineficácia o negócio local é agora alimentado pelos garrafoneiros que fazem o favor de vir recolher nas onze bicas da fonte pública os desperdícios gratuitos. Fazem-no livremente e livremente deixam no local lixo que chegue para dar trabalho a quem está para que quem vem seja contabilizado como turista. Na mentira disfarce da verdade deste cenário em que caiu o Luso, caíram primeiro as Termas, por isso a arte do Nicolau procura colmatar as insuficiências cardíacas do paciente sem remédio nem purgante.

De resto, quanto a aquistas, clientes, hóspedes, gente palpável na formação de alguma riqueza compensatória, enfim, alguém que empurre esta economia de subsistência hoteleira, foram-se quase com tanta limpeza como os próprios concessionários. Destes, apenas o rabo duma fundação para iludir incautos, confundir o poder e tranquilizar a má consciência. Depois de liquidar perante as barbas dum poder autárquico desastroso a indústria do lugar, abandonaram o barco, diz-se, que por aí até Cracóvia, bela cidade sem dúvida, que acaba por beber na circunstância do sangue que nos é tirado.

Como podia o Nicolau fazer milagres ainda que represente muito bem a ingestão no seu papel panfletário, se o Luso, na sua forma de termalismo ficou arrasado, as camas desocupadas, o negócio minimizado e o contrato de concessão, salvo melhor opinião, em possível estado de incumprimento? Sem que Autarquia e o Estado tentassem pôr fervura no descalabro, optando sim por água benta e omissão prejudicando gravemente a freguesia, o concelho, a região. Foi por isso que em 2014 Janeiro nasceu mais triste com o encerrar da última pensão, a Astória que passou também á história.

Num país de doidos, para parafrasear o irreverente Medina, não haverá lugar a dúvidas. A cervejeira que parece fazer o que quer, cumpre, os advogados defendem e as pessoas calam. Ao Estado vendido, basta a comodidade e o voto, porque pôr em causa o contrato da concessão, tem estado fora de causa. Medo, interesses? Não se sabe. Assim o cidadão fica sem saber se há incumprimento das regras estabelecidas, a autarquia amealha os proveitos de provisórios arranjos, as pensões acabam e o Luso termal fenece. Hoje de nada beneficia com a exploração da matéria-prima retirada abaixo dos nossos pés. Então e as pessoas? Pergunta-se. Onde estão as pessoas neste arrotar do remanescente europeu?

Deixando aos Nicolaus os seus papéis e cachés vê-se o desastre que foi o atrofiar da vertente do termalismo clássico, o engodo dum spa, de um Luso 2007 e outros mais, com a intervenção comprometida da política do município em favor da destruição operada nas Termas, minimizadas para um terço do que eram num projecto destrutivo que esteve meses e meses à vista de todos nós e ninguém quis verdadeiramente averiguar. O Luso termal está morto e era do morto afinal que provinha a riqueza que sustentava as pessoas. Sabia-se. Porque estas não vivem da palavra, do discurso, das promessas ou da iniquidade dos políticos. É preciso ressuscitar o defunto para ressuscitar as pessoas. Coisa que neste país é um problema com oitocentos anos de pesadelos. Na minha terra natal, chegou-se ao ponto de dar tudo a troco de coisa nenhuma. Uma questão de política, de cultura, filosofia, incompetência. De doidos, como diz Medina !             Luso,Fevereiro,2014  (JM-Crónicas locais)

 

 

publicado por Peter às 13:22

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